Casulos de Terra - O lado de dentro da cerâmica
A partir da observação do “avesso” de peças utilitárias e decorativas, percebi que o lado de dentro, além de forma, tem som, temperatura, textura e cheiro. O lado de dentro começou a ser mais interessante do que o lado de fora. O vazio respirava com muito mais força do que a forma. Comecei a aumentar o formato das peças que criava até que pudesse entrar com o corpo inteiro dentro delas. O meu desejo era ouvir o vazio e me deixar envolver pela terra.
































Respeitar o vazio é uma das primeiras lições da cerâmica, seja por questões técnicas ou utilitárias. O vazio é necessário para que as peças se tornem resistentes e não quebrem durante a queima ou na secagem. Na cerâmica, o vazio é tão importante quanto a forma. Para mim, este aprendizado foi importantíssimo e ultrapassou as questões técnica.
A partir da observação do lado de dentro de vasos, potes e jarras, percebi que no vazio, na ausência do material, existe uma energia concentrada, fechada dentro da forma. A transgressão de romper com este limite entre o interior e o exterior, ultrapassar o contorno e entrar no vazio despertou os meus sentidos.
Comecei a escutar jarras como se fossem conchas do mar. Fui trabalhando a minha percepção para tirar o máximo de prazer desta experiência.
Fiquei completamente fascinada pela experiência. O lado de dentro era a forma somado a nada. O nada era o vazio que pulsava com muito mais força do que a forma. Queria estar onde o vazio, ausência de matéria, encontrava o nada, a ausência completa.
Decidi aumentar o formato das peças. Em uma primeira fase, para um tamanho suficiente para colocarmos a cabeça dentro delas. Eu queria ampliar minha experiência, fazendo a comunhão de todos os sentidos.
A sensação de acolhimento e segurança me emocionaram. Cada forma vazia era diferente da outra. Me senti confortável, protegida, tranquila, dentro da terra. Era a mãe terra me acolhendo dentro de seu útero. Talvez fosse o resgate de uma memória afetiva ancestral.
O desejo de entrar com o corpo inteiro dentro deste vazio cercado de proteção me levaram a este projeto. Foi assim que decidi construir um casulo para nós humanos feito inteiramente de cerâmica.
Simultaneamente ao desenvolvimento do projeto, fui me interessando pela Alquimia Interna Taoísta. A Alquimia Taoísta transforma, refina e aumenta a energia do corpo. Esta prática criou uma nova integração minha com o processo da cerâmica. Na filosofia taoísta, cada um dos nossos sentidos está relacionado com um dos 5 elementos da natureza: a terra, a água, a Madeira, o fogo e o metal. Estes elementos se relacionam dentro de nosso corpo, transformando as emoções.
O processo de transformação do barro em cerâmica é correspondente ao da Alquimia Interna. A água e a terra, elementos femininos, estão presentes na criação. Podemos moldar a argila, ainda bem flexível pela quantidade de água que ela contém. A medida que a água diminui pela ação do ar (metal), a terra se torna mais rígida e a forma sólida. O processo é finalizado pelos elementos masculinos: a madeira e o fogo. A madeira alimenta o fogo que transforma a terra em cerâmica. É pura alquimia.
Com esta prática também aprendi a prestar atenção no invisível. Passei a acreditar que mesmo o que não vemos ou ouvimos, existe. O vazio é real e dele surgem muitas coisas.
Os Casulos de Terra são esculturas cerâmicas interativas criadas para serem vistas e sentidas tanto pelo lado fora quanto pelo lado de dentro. A matéria é a fronteira que limita e, ao mesmo tempo, estabelece a comunicação entre interior e o exterior. O corpo humano é um canal de ligação entre estas partes. Entre o céu, que está fora, e a terra que está dentro.
Os Casulos de Terra foram construídos com cobrinhas, totalmente manual, da forma mais tradicional de se trabalhar com a argila. O processo foi extremamente prazeiroso e fluiu em harmonia, sem maiores dificuldades. Foi um período de dedicação exclusiva ao trabalho com a argila, sem interferência do cotidiano, família e outras demandas. Com isto, desenvolvi uma relação intensa com o material, vivenciei uma troca genuína e criei uma intimidade no olhar e tocar o barro. Pela escala, me entreguei de corpo inteiro. Circulei por dentro e por fora da argila. Foi aí que encontrei, verdadeiramente, a alma feminina do material.
Para a quiema, contei com a parceria de Lei Galvão, cerâmista experiente de Cunha, SP, que construiu um forno de barranco em seu ateliê exclusivamente para este trabalho. O forno de barranco é uma das maneiras mais primitivas de transformar o barro em cerâmica. A peça menor queimou por 24 horas e a grande por 36 horas.
Durante o desenvolvimento do projeto, fui me envolvendo com pessoa e questões que não faziam parte do meu planejamento inicial. Assim, cheguei a lugares que não imaginava.